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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Café com dragões... Uma entrevista com Rômulo Marques

Ontem tomei um café com Romulo Marques, designer do Gekido junto com o Fel Barros pela Ace Studios. Entre papos sobre bandas e risadas, conseguimos até falar um pouco de jogo de tabuleiro. 

E aí, tem Jogo?: Como começou seu lance com os jogos?
Romulo: Brother Stronder Cacá. Primeiro, valeu pelo convite, fiquei felizão. Agora, eu sempre fui nerdolas, neh? Desde pequeno eu curtia quadrinhos, música e muito RPG. Suburbão carioca era assim, tinha que se ocupar com alguma parada para não cair na armadilha do tédio. Eu tive clube de RPG, escrevi muita coisa de RPG, pirava na brincadeira. Aê a gente cresce, casa, trabalha e lances, o tempo fica mais reduzido. Mesmo com o tantão de RPG maluco que se lê e joga numa tarde, eu não conseguia convencer meus amigos viciados em D&D para jogar. Um dia, papeando com um brother da época do RPG, ele falou que andava matando a vontade dele de jogo com os tabuleiros. Na semana seguinte eu estava no jogando no Castelo das Peças, quando ainda era em Copa. Isso foi em 2008. Uns dois anos depois eu já tinha comprado e jogado uns duzentos jogos e jogava toda semana na fome.

Romulo (no meio) com os amigos Fel e Humberto
nos primórdios do projeto Gekido.

Ea,tJ?: E a ideia de fazer jogos, como pintou?
Romulo: Então, não sei (RISOS). O lance é "deixa acontecer, naturalmente, eu não quero ver você choraaar" (MAIS RISOS). Agora sério. Eu li muito livro de game design quando eu comecei a pensar no assunto. Tem um livro do Brian Tinsman onde ele lista razões pra ser ou não ser game designer. Uma das razões que ele coloca é a febre. Você tem a febre quando não consegue parar de pensar em jogos, regras, temas e coisas assim. Eu me vejo muito nisso, teve uma hora em que fazer jogos se tornou uma necessidade. Eu estava trabalhando ou num momento de lazer e, de repente, "e se...". Eu não sossegava enquanto não escrevesse regras, montasse um protótipo ou algo que materializasse a ideia. Eu acredito que isso seja muito comum e várias pessoas sofram do mesmo mal! Estou até pensando em começar um evento no Rio chamado A FEBRE só para teste e montagem de protótipos. Eu tenho muita coisa de prototipação em casa, a galera iria para usar as peças ali na hora para testar conceitos. 

Referência bibliográfica, explicando a "febre" na hora de criar.

Ea,tJ?: E daí apareceu o Gekido.
Romulo: Pois é, Gekido não é meu primeiro jogo publicado. Eu e o Wallace da RedBox temos uma empresa de jogos corporativos e já tivemos oportunidade de fazer alguns trabalhos bem bacanas. Um deles, para a Petrobrás, foi um cardgame colaborativo contando um pouco da história do Caboclo Bernardo. Foi para uma série de eventos no Espírito Santo e foi uma das experiências mais bacanas da minha vida. Ali eu tive certeza que era aquilo mesmo que eu queria. O Gekido aconteceu por que eu e o Fel somos brothers antigos nessa brincadeira. A gente sempre falou de fazer jogo junto e ele conhece meu trabalho. Mais ou menos na época em que ele começou a formar a Ace, a gente começou a Stronda , que é um laboratório de amigos que curtem game design e toda a semana nos reunimos para testar e colaborar com os jogos um dos outros. Um dia a gente estava falando sobre o Warzoo e como o processo de fazer um jogo é demorado, entre a ideia e a venda do produto final. Decidimos quebrar alguns paradigmas no café da manhã e acelerar ao máximo esse processo sem abrir mão de muito playtest. Aí em alguns meses estava o Gekido sendo vendido!

Protótipo do jogo e primeiras versões dos dragões.

Ea,tJ?: E como você faz jogos? Quando a febre bate você faz o que? Corre para o banheiro?
Romulo: Quase! (RISOS) Cara, eu penso muito orientado a processos mesmo, trabalho com isso inclusive. Tudo que eu li sobre game design focava no processo, fases de desenvolvimento e eu tento levar isso a cabo. Toda a Stronda foi montada dessa maneira, na verdade. Ajudou muito também fazer o Workshop do Chris Boelinger que o Fel montou aqui no Rio de Janeiro. Hoje, quando vem uma ideia, eu já começo a fazer um draft do manual. No mínimo eu listo os componentes e como funciona um turno, é o que eu chamo de briefing do jogo. Depois eu parto para o "prototipão" (feito de papel de pão, se duvidar), qualquer coisa que me permita um "crash test". É importante que o tempo entre a ideia e o primeiro crash seja muito curto para manter a empolgação. Depois dos crashs, eu já faço uma versão mais arrumada do protótipo que é para testar os componentes, penso no tamanho das coisas, o que eu posso cortar e como ter um produto enxuto. Aí, cara, é testar até dizer chega e ir atualizando manual.
 
Romuldo (de amarelo) durante o workshop com Chris Boelinger.

Ea,tJ?: Mas com tantas ideias fervilhando na sua cabeça, ainda sobra tempo para jogar alguma coisa nova até para canibalizar novos elementos?
Romulo: Muito menos do que eu gostaria, Cacá. Na Stronda, a gente joga toda a semana os nossos jogos e hoje é difícil eu dedicar mais do que um dia na semana para isso. Às vezes jogo no fim de semana na casa de amigos (a sua inclusa!), mas é esporádico. A gente vive falando "pô, bora jogar alguma coisa que já esteja pronta?", por que dá no saco mesmo às vezes. Eu nunca paro de, pelo menos, ler e acompanhar os jogos. Leio muito manual, vejo vídeo de gameplay, participo de vários fóruns e comunidades para me manter inteirado sobre regras, temas, truques e desafios. Claro que não substitui o lazer e nem a experiência correta do jogo, além de ficar mais parecido com um trabalho! Mas é aquilo, cada escolha é uma renúncia e, francamente, fazer jogo é MUITO divertido. 

Ea,tJ?: Bacana, cara! Agora deixa um recado aí para a galera do E aí, tem jogo?
Romulo: Ah, cara. Eu queria falar para a galera fazer muito jogo, saca? Eu aprendi para cara### nessa coisa toda. Até workshop de teoria dos jogos eu já dei para executivos de vendas com o que eu aprendi nesses anos. Tem vários concursos maneiros de jogos por aí, vale a pena participar! Como qualquer coisa na vida, tem partes muito chatas, manter os testes regulares, tomar nota de tudo e se manter focado na proposta mesmo tendo um emprego regular. É do bem ler, estudar bastante o assunto, vale a pena mesmo! Meu sonho é BRAZILIAN STORM nesses concursos internacionais e de títulos publicados fora, colocando o Brasil no mapa do board game mundial.

3 comentários:

MisterJaPa disse...

Muito bacana a entrevista! Curti a ideia de um evento de prototipagem. =)

Flávio P. Reis disse...

Carácoles... Quanta informação útil numa entrevista aparentemente despretensiosa...
Sofro dessa febre de ideias sobre jogos, mas tenho tantas responsabilidades que com o tempo todo quebrado, só consigo encher agendas e mais agendas com projetos...
Preciso prototipar urgentemente!
Gostei muito, meu caro!
Abraço!

Aline Costa disse...

Também gostei bastante da entrevista. Super legal a ideia de um evento de prototipagem. Espero que se rolar, não seja fechado só para desenvolvedores. Eu não crio nada, mas adoro testar as criações alheias. Gosto de acompanhar o processo evolutivo.